quinta-feira

Relvas do Tempo V

 

a tentação da quimera:
o desconhecido

Relvas do Tempo IV


a funcionalidade da madrugada:
o silêncio a si mesmo

Eterno ou Instante

Por um instante qualquer temos a impressão de um algo novo, e tudo o que é velho desaparece. O amor. E se fosse o contrário? Por um instante eterno vivemos a certeza das raízes, e tudo o que é novo desaparece. O Amor. Mas, somos impelidos às coisas “novas”: esquecer um nome, beijar algum alguém, esvaziar o sentido lotando-o de sempre um algo mais novo. Amargura é uma palavra que se carrega nos ombros, não é significante, há significado, porém, é mais carne, caminhada, despertar. E também nasce de um algo novo. E também se enraizou num algo “velho”. E quanto ao peso? A “nova amargura” é um algo impreciso para onde nos impelimos, mas também é fácil esquecer, uma amargura nova a substitui. A “velha amargura”, aquela que tem um sabor crescente dentro do peito, nos faz refletir, um momento qualquer do dia é uma eternidade por dentro dessa infiltração ao longo do tempo. É também um sentimento afetado de falta, um algo indefinível que falta, um algo impreciso até que se tome uma atitude. O amor novo torna-se velho cada vez que se ama. Um amor velho e verdadeiro torna-se novo cada vez que se ama.
 

quarta-feira

Relvas do Tempo III


o poeta é capaz de destruir mundos
para semear a mais simples flor

Relvas do Tempo II


passarinho em galho de árvore tumultua
o vazio do homem no calor da rua

Relvas do Tempo I


as palavras me escondem
dentro de um céu crescente

Coisa Como Chuva


          c          c          c          c
h          h          h          h
          u          u          u          u
v          v          v          v
          a          a          a          a
 
chegou de repente
os gritos começaram
as crianças correram
como se fossem estrelas cadentes
correram as crianças
começaram os gritos
de repente chegou
 
        c          c          c          c
h          h          h          h
          u          u          u          u
v          v          v          v
          a          a          a          a

Intermitências interioranas


O tempo não seria uma parábola para a vida que quase para no interior, se não fosse o tempo escorregando até as beiradas da tarde. Mas se ilude quem vê assim. O que antes é um sono pesado, tarde de se acordar, não percebe o quanto já se amanheceu. Os pássaros têm uma predileção pelas coisas da manhã, o homem confuso da cidade, pelas coisas da noite. Os pássaros amanhecem criando, o homem destrói-se escalavrando algo pela madrugada deserta. Um domingo de manhã cedinho no interior é um céu enorme, divagando na respiração das nuvens. Há uma pausa enorme para quem vai para lá. O corpo começa a ganhar a forma do eu, talvez por ser a unidade mais desordenada para se analisar, pois as coisas do interior têm as suas formas precisas, serenas e sensatas. O eu carrega-se de labirintos, formas de não conhecer-se, mas a ordem do amanhecer no interior é uma força que se reflete no sol ganhando a manhã.

terça-feira

Lua dentro da tarde

A lua dentro da tarde nos desassossega por sua majestade sempre nova. É como se aquele satélite fosse a presença viva das coisas do espaço. As estrelas renovam a luz que cresce também dentro dos olhares, por isso nos mantemos apaixonados, sempre renovados por alguma coisa de enigma que nos assusta. A lua poderia ser uma mulher para nos amamentar; poderia ser um homem, para que confiássemos nossos sonhos. Mas parece, na verdade, que é tudo, pois não está a um palmo acima das cabeças. Por isso sonhamos alto demais, na mulher que se ama humildemente de amor; no homem que se irmana na construção de um algo que não se pode dizer, tem-se que viver. 384.405 km do nosso planeta, e ainda desenhamos no pensamento suas crateras de impacto que um labirinto de gás e poeira e asteróides delineiam e nos impressiona como se sempre fosse a primeira vez que a víssemos. A lua dentro da tarde é uma curva entre o que nos leva ao céu dos nossos sonhos e a assustadora presença de sempre vê-la.


segunda-feira

Palavra Alguma Palavra

“Os nossos verdadeiros prazeres consistem no livre uso de nós mesmos.” 
Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon

Algumas palavras. Nenhumas palavras. Quanto tempo faz que procuramos a que vai resolver a intriga e o caos das estações? "Eu amo", "eu odeio", o peso disso tudo desnivelou-se. Ama-se tudo, odeia-se tudo. Parece não haver a gradação das estações, o megulho é um só, o fôlego é um só. O beijo deveria ser mais uma palavra dizendo a verdade, mas evapora-se como a palavra evolar. O prazer de nós mesmos estaria no livre uso de nossas verdades, mas quanto tempo faz que nos falta a palavra que resolva o coração? Talvez essa palavra sempre nos falte. Talvez por isso amamos e odiamos a tudo. Num mergulho só, num fôlego só... e não destinguimos os peixes; talvez só a luz que mude as gradações. E não distinguimos as palavras; talvez só a escuridão que as encobrem.

domingo

Criação

Ir e vir. Trajetória do caos. O que poderia ser? O que deveria ser? O que é? Tudo isso se expandindo. O baricentro sofre abalos, mas é isso o que persiste. Entre o papel e o grafite - parábola gasta - e o equilíbrio? A criação é o refúgio, mas refletir refletir refletir. A imaginação costuma conduzir o poeta como um balão. E ela concede muita corda para as alturas... cuidado! Todo cuidado é pouco, a imaginação começa fora das palavras, as palavras outorgam sentidos, mas a imaginação é o sentido a mil. O ritmo do poeta segue o ritmo da imaginação ou das palavras? As palavras - como pesam - cada uma em seu estado de não-dicionário - como pesam - pois são estas as pouco prováveis.

sexta-feira

Filáucia


                                                   ". . . Deixarás tudo aquilo que te agrada
                                                   mais profundamente; é esta seta a tal
                                                   logo no arco do exílio disparada.

                                                   E provarás como é falto de sal
                                                   o pão d' outros, e como é dura estrada
                                                   subir e sair pelas escadas de outros."

                                                                                              Paraíso
                                                                                             (Canto XVII)

Refugiar-se em terra estrangeira confere ao homem a oportunidade de ver-se por dentro. Omnia mea mecum porto, a oportunidade está ai. Segue-se um caminho obtuso demais pelas camadas do coração, mas são essas que devem se trilhadas. O único bem que se tem nesses momentos é a humilde sabedoria de se reconhecer homem.